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9 de dez de 2017

[Poesia] PEDRO LUSO – Fuzis e Jasmins





FUZIS E JASMINS
PEDRO LUSO DE CARVALHO


Dedico este poema, que reedito, às Mães da Praça de Maio (Madres de Plaza de Mayo), Buenos Aires, Argentina.



Quando a moça regava os jasmins
céu de chumbo escureceu o jardim –
sentiu a pátria ferida de morte.

A moça sugou da terra a seiva,
de vulcões esbraseantes lavas,
sua couraça de ossos e nervos.

A pátria seria defendida,
bocas famintas teriam pão
os jasmins tinham o seu jardim.

Foi na noite cúmplice a tocaia,
enfrentou soldados e fuzis –
jogaram o corpo na erma vala.

Uma luz, na escuridão da noite,
clareou a boca, rosa de sangue.
– Os tantos sonhos foram desfeitos. –

Quem por aquele campo passar,
ouvirá as lamúrias do vento,
sentirá dos jasmins o perfume.





 *   *   *




1 de dez de 2017

[Poesia] PEDRO LUSO – As Rosas Vermelhas





AS ROSAS VERMELHAS
PEDRO LUSO DE CARVALHO



Queria o homem esquecer a mulher,
mais que a mulher, esquecer a traição.
Refugiou-se o homem no seu jardim,
junto às roseiras, com suas penas.

Com ardor, às roseiras dedicou-se,
amor e alma, seu único horizonte.
Fez o seu mundo de perfume e cor,
paraíso de rosas e roseiras.

Dizem que perfume e viço das rosas
deviam-se só ao sangue do homem
doação de amor, sua recompensa
às rosas vermelhas do roseiral.

O que diziam, a pura verdade:
a fosforescência do roseiral,
mistério das rosas no breu da noite,
planeta de sonhos do jardineiro.

Numa dessas tardes frias de inverno,
encontraram o corpo entre as roseiras.
Sem vida o homem, naquele roseiral,
tinha presas nas mãos rosas vermelhas.




*   *   *




24 de nov de 2017

[Poesia] PEDRO LUSO - Naquela Noite no Bar





NAQUELA NOITE NO BAR
PEDRO LUSO DE CARVALHO



Na penumbra do bar,
misterioso mundo,
mentiras, juras feitas
em segredo mantidas.

Seara dos amantes,
pela paixão enlaçados
tempo fugaz da noite,
na penumbra do bar.

De casais, silhuetas.
Os cristais a tinir.
Sussurros estendidos.
Lembrança ficará?

Curta é essa noite,
breve é a paixão,
como as rosas vermelhas,
esquecidas nas mesas.

Restam sombras no bar,
ficam sons de promessas.
Nessa noite que morre
não há centelha do amor.




*   *   *




17 de nov de 2017

[Poesia] PEDRO LUSO – Meu Caminho







MEU CAMINHO
PEDRO LUSO DE CARVALHO




Pudesse escolher meu caminho
outro caminho trilharia
sem ter culpa para expiar.

Resigno-me com minha estrada,
aceito o travo de amargura,
pois pode haver um renascer.

Há transtornos em meu caminho,
conflitos nas encruzilhadas,
tempo de andar e de parar.

Fino-me um pouco nesse andar,
há sempre perigo nas curvas,
facas e punhais na neblina.

Quando não tiver mais caminho,
quem guardará o som de bronze
desses passos, desse meu andar?





 *   *   *





11 de nov de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO – A Noite





A NOITE
PEDRO LUSO DE CARVALHO




A janela do quarto,
na semiobscuridade,
bate repetidamente.

É o vento
trazendo lembranças
e fantasmas
das lonjuras do tempo.

Vento forte
quebrando a solidão
do bronze das estátuas,
esquecidas
nas praças desertas.

A cidade dorme
com suas feridas expostas.





*   *   *






3 de nov de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO – A Casa de Pedra




      A CASA DE PEDRA
      – PEDRO LUSO DE CARVALHO




Por quanto tempo fiquei ali,
feito estátua, em frente à casa,
entre prédios e palacetes ?

Volto depois de muitos anos
à antiga casa de pedra –
o reino perdido da infância.

Era grande a casa de pedra,
na minha infância tão distante –
palácio de tantos brinquedos.

Ficou pequena, a minha casa
de pedra! Onde a casa de sonhos?
Sumiram juntas, casa e infância?

Lufada de vento oportuna
(sopro de algum anjo perdido)
fez-me entrar na casa de pedra.


Posso, homem de tantos caminhos,
ser de novo aquele menino
dessa casa reino perdido?

Falta-me o fôlego. No peito
garras ferememoção e dor.
Levou o sonho, ave de rapina.





*   *   *