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13 de ago de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO – A inútil busca




A INÚTIL BUSCA
 - PEDRO LUSO DE CARVALHO



Aonde encontraremos político,
da pátria defensor denodado,
nobreza d'alma, honra iluminada,
com caráter em aço forjado?

Homens probos já teve o país,
esquecidos no tempo distante,
apagados seus ensinamentos:
à amada pátria, amor constante.

Presente no país a miséria,
é submetido o povo à dor,
desolado, desesperançado,
sem a coragem de vencedor.

Desiludida está tanta gente,
qual andrajos de nave retida,
descrendo na imposição da lei
persistem em terra destruída.




*   *    *



6 de ago de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO - Hemoptise






   

    HEMOPTISE

   - PEDRO LUSO DE CARVALHO




Vi naquele quarto sombrio
aquele homem de vítreos olhos
palidez de cera no rosto
as profundas marcas gravadas
pelo tempo nesse seu andar
com a dor que espera passar.

A ameaça se faz presente
(não cessa o martírio da tosse)
o risco de romper-se a veia
azulada, que a pintou mão
de algum espectral ser no rosto
marmóreo, para seu desgosto.

Não mais quer lutar pela vida:
irrompe-se, qual meteoro,
a hemoptise; sente-se o frio,
silêncio no quarto vazio.



 *   *   *






30 de jul de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO -- Solidão





   SOLIDÃO
PEDRO LUSO DE CARVALHO




Vi no banco um homem marcado
pelo tempo, a que foi enredado,
pensativo junto ao mar.


Do mar, os afagos do sol,
doce cantar do rouxinol,
solidão para afugentar.

Expectante olhar, sem remonte,
para ver além do horizonte
um feito para se orgulhar.

Cruel tempo apaga o fulgor,
do brilho não mais vai dispor.
Ninguém virá para chorar.





 *   *   *






23 de jul de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO - Ventania





VENTANIA
PEDRO LUSO DE CARVALHO




Da Patagônia, esse vento, esse frio
(congelante frio)
vem cortar minhas veias com garras mortais.

Vejo através da vidraça, assombrado,
o dia sumir
escuridão repentina, noite no dia
gélido terror.

Sobre o telhado da casa, às escuras,
barulho horrendo
de passos, de ser
estranho, vindo de um estranho mundo.

Fantasmagórica ventania não cessa
com o seu uivar
de fera faminta.
Seguro à janela, curvado de medo,

ouço o terrível zunido da ventania
guerreira feroz –
derrubando postes,
fios agonizantes no chão, retorcidos.






*  *  *







16 de jul de 2017

Poesia) PEDRO LUSO – A alma do homem





A ALMA DO HOMEM
PEDRO LUSO DE CARVALHO




Sobre a cama o corpo frágil,
não mais o corpo forte e ágil,
do tempo, vítima.

Na desordem do quarto, o ágio,
mas vem raios de luz, apanágio,
numa paz legítima.

Havia um plano para a noite,
para o mortal plano, o açoite,
ao homem implica.

Esperança do homem feneceu,
forças findas na noite, no breu.
Morre, a alma fica.





*   *   *





8 de jul de 2017

[Poesia] PEDRO LUSO – A inútil espera






A INÚTIL ESPERA
– PEDRO LUSO DE CARVALHO



Na longa espera dói-me o peito
ferido por tantas esperas
em meio às fotografias
amareladas
do velho álbum
sobre a escrivaninha.


Pressenti na inútil espera
a ruptura dos elos
vidas perdidas
com sonhos tantos
acalentados
encanto e desencanto.

Naquela tarde quase noite
me vi no vidro da janela
refletido
a dor refletida no espelho.


Vi lá fora a silhueta da mulher
na densa névoa
fazia-me acenos de despedida –
ausência e lembrança eternizavam-se.





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2 de jul de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO - Este não o meu país




ESTE NÃO É O MEU PAÍS
-- PEDRO LUSO DE CARVALHO


Honra me ensinaram a ter
Desonra é o que vejo no país
Astúcia e maldade também
De venais políticos a ganância
Deles somos todos reféns
Podem subtrair subtraem

Honra me ensinaram a ter
Desonrra é o que vejo no país
Todos agora são estranhos
Agora aqui tudo é diferente
Não é o que foi a minha casa
Nem a escola onde me instrui

Não conheço mais este país
Em que país terei crescido
Onde aprendi moral e ética?
Lições de casa e da escola
Dos pais e dos professores
Honra me ensinaram a ter


Desonra é o que vejo no país
Aqui é sistêmica a corrupção
Tiram o que temos sem pejo
Políticos de todas as frestas
Legam insegurança e medo
Marca da violência o sangue

Aqui a morte está no semáforo
Também pode estar na praia
Na avenida pode estar
Pode estar também na praça
A morte está em mãos nervosas
No apertar do gatilho a desgraça.




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